A participação cidadã como dimensão estratégica para o controle externo

Por Marcos Mendiburu, Paula Chies Schommer e Fernando Maccari

A participação cidadã tem se tornado relevante para orientar o controle público às prioridades da sociedade, aprimorar a qualidade das auditorias e fortalecer a legitimidade de órgãos de controle externo, como os Tribunais de Contas.

Organizações internacionais, como a Organização Internacional de Entidades Fiscalizadoras Superiores (INTOSAI) e a Organização Latino-Americana e do Caribe de Entidades Fiscalizadoras Superiores (OLACEFS) reconhecem que ouvir e envolver a sociedade contribui para que o controle externo  gere valor público. Entre outras razões, essa participação permite alinhar o trabalho dos Tribunais de Contas com as prioridades da sociedade, enriquecer a qualidade das auditorias e fortalecer a legitimidade dessas instituições. Tanto a INTOSAI como a OLACEFS possuem, respectivamente, um grupo de trabalho e uma comissão, esta presidida pelo Tribunal de Contas da União, TCU, do Brasil durante 2026-2027 sobre esse tema. 

O Brasil possui vasta experiência em participação cidadã, inclusive no controle social. Mais recentemente, esse tema vem despertando crescente interesse entre os Tribunais de Contas. O TCU publicou, em 2024, um Referencial de Participação Cidadã e, em 2025, promoveu capacitações internas e elaborou guias práticos. Tribunais de contas estaduais vêm realizando experiências de auditorias com participação social, compartilhando aprendizagens e resultados em iniciativas da Rede Integrar e de outros espaços colaborativos. Em 2025, a ATRICON emitiu uma nota recomendatória sobre o assunto.

Para conhecer e debater as aprendizagens com essas práticas e os caminhos para avançarmos mais rápido, nos vários pontos do sistema de controle, o grupo de pesquisa Politeia, da Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc, em parceria entre o TCU, o Instituto Serzedello Corrêa e diversos interlocutores e parceiros, está realizando em 2026 pesquisas e uma série de debates online. 

O primeiro webinário, em 17 de março, moderado pela professora  Paula Chies Schommer, da Udesc Politeia, e pelo auditor Luiz Gustavo Gomes Andrioli, do TCU, examinou as experiências do TCU e dos Tribunais estaduais do Paraná e de Pernambuco,  as lições aprendidas, a visão da sociedade civil e da academia sobre a abertura do controle externo e as áreas de melhoria para o futuro.

Na abertura, Manoel Moreira de Souza Neto, Secretário da Secretaria de Relacionamento Institucional do TCU, ressaltou a complementaridade entre o controle externo e o controle social  e a importância da interação dos Tribunais de Contas com a sociedade para a sobrevivência das instituições públicas em termos de legitimidade e efetividade, em um contexto global de erosão da confiança nas instituições. Além disso, o Secretário destacou que o TCU reconheceu o foco no cidadão — isto é, como destinatário das ações do TCU — como princípio orientador de seu trabalho, e isso envolve a participação cidadã, entre outras dimensões.

Adriana Figueiredo Arantes, Diretora de Controle Externo do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco compartilhou como esse TCE colocou o cidadão no centro de sua atuação para ser mais efetivo. Essa abordagem implicou uma gestão da mudança (reorganização interna) no interior do Tribunal. A nova metodologia de trabalho consiste em identificar ações prioritárias para a população de Pernambuco e planejar um conjunto de ações em ciclos. Em seguida, Adriana Abrantes compartilhou os pilares que orientam a atuação do TCE-PE. Por exemplo, a cultura de gerar resultados para a cidadania; uma perspectiva integral permeando as diversas linhas de trabalho do Tribunal, como a fiscalização, o julgamento, a escola de contas, a comunicação, a ouvidoria etc.. Ela também apresentou uma linha do tempo da implementação dessa abordagem e seus resultados. Além disso, como parte desse processo de mudança, o TCE-PE começou a identificar benefícios não financeiros de seu trabalho e o alcance do impacto sobre a cidadania.

Aurelio Toaldo Neto, chefe do Chefe do Serviço de Participação Cidadã da Secretaria de Relações Institucionais do TCU, compartilhou a trajetória sobre participação cidadã nessa instituição durante os últimos dois anos. Após a publicação do Referencial de Participação Cidadã, em 2024, o novo plano de gestão do TCU para 2025-2026 incorporou “o foco no cidadão” e a “participação cidadã” como diretrizes para seu trabalho. Aurelio compartilhou como esse tema foi incorporado aos processos do TCU, por exemplo, no planejamento; no âmbito  organizacional, com o estabelecimento de uma equipe de participação cidadã; e em suas operações, por meio de auditorias específicas, como, por exemplo, a auditoria sobre golpes digitais contra pessoas idosas. Também foram mencionadas as iniciativas “Força-Tarefa Cidadã Obras”, em parceria com o Observatório Social do Brasil; o programa “Juntos pelo Cidadão”; o Portal de Participação Cidadã, que até o momento incluiu dois ciclos de votação de cinco temas de auditoria; e atividades de capacitação e formação, como a “Disciplina Cidadania e Controle Social”, para estudantes de nível médio e superior, oferecida conjuntamente com o TCE-Ceará. Por fim, foi enumerado um conjunto de desafios identificados e a forma como estão sendo mitigados para implementar a participação cidadã no TCU.

Luiz Henrique Xavier, Coordenador de Controle social do Tribunal de Contas do Estado do Paraná, compartilhou a experiência desse TCE, que possui a trajetória mais extensa nessa temática. Dado o amplo universo de jurisdicionados no Paraná (e  aspectos orçamentários, financeiros, contábeis, operacionais e jurídicos), o TCE-PR reconheceu a importância de fortalecer a totalidade do sistema de controle público, ou seja, o controle estatal externo, o controle estatal interno e o controle social. Luiz Henrique descreveu como a articulação com o controle social no trabalho do TCE-PR evoluiu de uma prioridade na gestão de um presidente do TCE para uma política institucional desse Tribunal. Dessa forma, foi descrito o processo de institucionalização, a diferença entre a Ouvidoria, estabelecida em 2006, e a Coordenadoria de Atendimento ao Jurisdicionado e de Controle Social,  CACS, criada em 2022 como unidades vinculadas à cidadania. A primeira é associada a uma abordagem reativa da participação, pois se inicia a partir de uma manifestação ou reclamação cidadã, enquanto a CACS procura promover a participação de maneira proativa. Houve  projetos-piloto entre 2011 e 2014  e a incorporação do tema no plano estratégico de 2017 e 2022, com indicadores e metas, e no regulamento interno do TCE em 2019. Uma particularidade da abordagem de participação cidadã promovida pelo TCE-PR é o envolvimento dos conselhos municipais como contrapartes estratégicas para fortalecer o controle social.

Victor Moura participou do debate trazendo a perspectiva da sociedade civil sobre a interação com o controle externo. Victor é jornalista e coordenador do coletivo Redes do Beberibe, formado  por jovens que buscam  a melhoria das condições de vida e moradia na região da Bacia do Rio Beberibe, na periferia norte de Recife. Esse coletivo implementa ações de controle social e incidência nas políticas públicas locais, por exemplo, para melhorar a moradia da população que reside em encostas e áreas sob risco,  como as afetadas por chuvas e deslizamentos de terra que causaram vítimas fatais. Como parte de sua metodologia, realizam solicitações de informação pública — conforme a lei de acesso à informação, LAI, mas também geram seus próprios dados, por exemplo, quantos dias seguidos cada domicílio e cada bairro tem acesso à água sem interrupção, contrastando-os ou complementando-os com os dados oficiais. Esses dados  são convertidos em mapas — por exemplo, sobre o acesso à água — e promove-se a democratização do conhecimento de interesse público no interior da comunidade e na esfera pública. O grupo também produz reportagens e documentários, como “O Plástico Preto e as casas sob risco em Água Fria”. Um dos desafios é promover uma cidadania ativa, convertendo a  cultura do favor em  cultura do direito, como resultado do processo histórico registrado em Recife.

Na etapa de perguntas e comentários, enfatizou-se a importância de passar de ações pontuais e projetos-piloto para uma abordagem  integral e estratégica de participação cidadã no controle externo. Cabe estabelecer estrutura e planejamento interno, com  indicadores e metas, ao mesmo tempo em que se estabelece parcerias, diálogos e se aprende com outras experiências, adaptando-as ao contexto de cada estado. 

Destacou-se a necessidade de consolidar ações ou iniciativas que promovam a participação cidadã e de promover a experimentação e a inovação em torno do controle social em instituições caracterizadas por um alto nível de normatização e por uma cultura sancionatória, como os Tribunais de Contas. Além disso, ressaltou-se a importância de contar com uma unidade, área ou equipe específica sobre participação cidadã nos TCs, que lidere o tema interna e externamente, gere conhecimento e o difunda.  Ainda,  levantou-se a questão de como envolver os grupos mais vulneráveis nas ações de participação ou controle social promovidas pelos Tribunais de Contas, os quais enfrentam barreiras à participação. Um dos participantes do evento, via chat, levantou a questão sobre como  a polarização social observada atualmente pode afetar a participação cidadã. 

Por fim, foi anunciado o próximo webinário da série, que focalizará práticas conjuntas entre cidadãos e auditores no acompanhamento de obras públicas. Será  no dia 14 de abril de 2026, às 15h. Detalhes e inscrições neste link.

Para acessar a gravação completa do primeiro webinário, clique no seguinte link:

De 7º para 19º lugar no ITGP: desempenho do governo catarinense cai 12 posições no Índice de Transparência e Governança Pública 2025  

Lançado este mês, indicador da Transparência Internacional – Brasil alerta que o estado de SC retrocedeu em práticas de participação social e dados abertos

Foram 106 critérios avaliados em oito dimensões de análise, que ajudaram a formar um retrato dos governos de todo país no novo ranking nacional do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP) – edição de 2025. O desempenho médio do estado de Santa Catarina em transparência e governança caiu de 7º lugar, em 2022, para 19ª posição na classificação geral entre os estados brasileiros, neste ano. O governo estadual catarinense figura no penúltimo posto da lista dentro do nível “Bom”, com nota 63,01, na média das oito dimensões avaliadas, de um total de 100 pontos. 

De acordo com o levantamento da Transparência Internacional – Brasil nas dimensões 1) Plataformas, 2) Transformação Digital, 3) Dados, 4) Administração e Governança, 5) Legal, 6) Transparência Financeira e Orçamentária, 7) Obras e 8) Participação, o ponto mais crítico do governo catarinense está nas dimensões “Legal” e “Participação Social”, ambas com nota 35,0 de 100. 

Estudo de 2025 aponta onde SC precisa melhorar: dados e participação cidadã – Foto | Reprodução Site Tranparência Internacional Brasil

Conforme o ITGP, as baixas notas nestas duas dimensões, em específico, recomendam a necessidade de aprimoramento em pilares  de governança, como o monitoramento das normativas regulatórias, fatores que comprometem a integridade e a clareza da gestão pública. 

O item 4, “Administração e Governança” também foi mal-avaliado, com nota 56,3. A falta de regulamentações específicas sobre dados abertos, conflitos de interesses e vedação ao nepotismo indica uma base legal que precisa ser fortalecida para a prevenção de práticas inadequadas e aumento de oferta na promoção da abertura do estado. 

No campo da “Participação social” do ITGP, são considerados desde atos de governo, debates sobre orçamento, participação em diferentes níveis governamentais e de políticas públicas, e abertura para a população interagir, opinar e cocriar o bem público. Os resultados neste quesito (baixa pontuação) refletem um sistema de participação pública que se encontra em parte inativo ou subutilizado. 

O que pode explicar a nova posição de SC 

Entre as razões para esse desempenho no ITGP 2025, estão, por exemplo, a inativação do Conselho de Usuários dos Serviços Públicos e a inexistência de um Conselho de Transparência e/ou de Combate à Corrupção ativo. Essa condição sinaliza um déficit na accountability social e na escuta ativa das demandas cidadãs. Outra explicação para a nova posição é o fato de que outros governos estaduais melhoraram seu desempenho no ITGP. Além disso, novos critérios de análise foram implementados de uma edição para outra, o que exige atenção constante às novas tendências em transparência e governança pública. 

A restrição de oportunidades para participação da população na discussão do orçamento estadual é outro critério que representa um obstáculo à governança participativa. 

Onde SC se saiu bem no ITGP 

Os critérios em que Santa Catarina apresentou bom desempenho refletem uma posição de modernização do serviço público, novas plataformas do governo e de seus serviços, e uso e gestão de dados para promover a gestão pública. 

“Transformação Digital” foi a dimensão com maior nota: 92,3, seguida de “Dados” com 78,6 e em terceiro aparece “Plataformas” com pontuação de 78,3, revelando que o governo aposta e realiza iniciativas de digitalização, governo digital/e-gov, atendimento digital e uso e acesso a serviços por aplicativos e sites públicos de governo. Outra percepção revelada pelos dados é o investimento como política pública no âmbito da cultura de inovação e promoção de dados abertos. 

Análise do Politeia: ideias e perspectivas 

Para o professor e pesquisador do Politeia, Dr. Rodrigo De Bona da Silva, autor de tese sobre políticas de integridade pública, o resultado do ITPG pode ser explicado de forma multifatorial. Na avaliação do pesquisador, é preciso dar tempo ao novo Controlador-Geral para implementação das melhorias, mas ao mesmo tempo é preciso cobrá-lo para que a Transparência, a Governança e a Integridade sejam prioridades. “Porque o corpo técnico da CGE é altamente qualificado e tem potencial para levar o Estado ao topo dos rankings”, declara.  

“Acredito que a falta de avanço do Estado seja reflexo, em grande medida, das sucessivas trocas de chefia na Controladoria-Geral do Estado, que atrasam a regulamentação legal do órgão”, pondera o professor De Bona. 

Segundo Victoria Araujo, mestranda em Administração e pesquisadora de temas relacionados à transparência pública, accountability, participação e controle social no grupo de Pesquisa Politeia, o resultado de Santa Catarina no ITGP de 2025 evidencia desafios relevantes. O Estado obteve sua pior avaliação nas dimensões legal e de participação social. A regulamentação é geralmente o primeiro passo para que políticas e ações se concretizem na administração pública, e avançar nessa frente depende, entre outros fatores, de vontade política. 

Para a mestranda Victoria Araújo é preciso amplicar o acesso a canais de participação popular | Foto Arquivo Pessoal

Para ela, esse processo de regulamentação pode ser fortalecido quando ocorre em diálogo com a sociedade, garantindo legitimidade e efetividade às regras criadas. É justamente nesse ponto que a regulamentação se conecta à segunda dimensão em que o Estado foi mal avaliado: a participação social. O desafio não é apenas assegurar os canais previstos em legislações federais, mas ampliar as formas de escuta e engajamento da população. Com marcos legais mais claros e atualizados, Santa Catarina pode criar condições para práticas mais efetivas de diálogo com a sociedade, transformando fragilidades em avanços concretos em governança e transparência. 

O professor do curso de Administração Empresarial e pesquisador do Politeia, da Esag Udesc e especialista no tema, Dr. Fabiano Maury Raupp, destaca que a organização responsável pelo estudo coleta, analisa  e divulga dados variados, apresentando, além da classificação geral, recortes que permitem comparação e análise por estado e projeções sobre as principais fragilidades e pontos positivos. Quanto ao desempenho de Santa Catarina no ITGP 2025, ele destaca:

“Sair de 7ª posição na edição publicada, em, 2022 para 19ª agora, revela que o Estado retrocedeu em termos de construção do exercício da transparência e governança pública”, pondera o professor. É preciso avançar, seguir avançando na constituição de normas sobre dados abertos, conflitos de interesses e de vedação ao nepotismo e também discutir a ausência de Conselho de Transparência e/ou de Combate à Corrupção ativo e ausência de Conselho de Usuários dos Serviços Públicos ativo. Faltam oportunidades de participação da população na discussão do orçamento”.

Professor do curso de Administração Empresarial da Udesc Esag e pesquisador do Politeia, professor Dr. Fabiano Maury Raupp normas sobre dados abertos, conflitos de interesses e de vedação ao nepotismo. Foto Arquivo Pessoal

Para o docente, é importante compreender que a queda nessa nota média dentro da classificação geral, não necessariamente, representa uma piora geral de desempenho. “O Estado de SC tem avançado, embora sejam visíveis as pedras no caminho de um efetivo exercício da transparência e da governança pública tanto na perspectiva legal quanto em termos de valor fundamental”, conclui Raupp. 

SOBRE O ÍNDICE 

O Índice de Transparência e Governança Pública foi desenvolvido pela organização da sociedade civil Transparência Internacional – Brasil para ser uma ferramenta regular de avaliação da transparência dos governos brasileiros.

A cada atualização do índice, é possível comparar a evolução dos entes avaliados e estimular melhorias contínuas da transparência pública. O ITGP classifica os atores avaliados em formato de ranking. As notas vão de 0 a 100 pontos e quanto maior a nota, melhores os níveis de transparência e governança daquele órgão/entidade/governo. Nesta edição de 2025, a boa notícia é que nenhum Estado foi classificado como “Ruim” ou “Péssimo”.