Mapeamento de iniciativas de Governo Aberto nas regiões da ACAMOSC e AVEVI 

Por Karin Vieira da Silva e Carolina Kichller da Silva 

A perspectiva de governo aberto, além de objetivar a construção de um arcabouço conceitual, traz, em sua essência, uma orientação para a prática. Isso implica esforços para a formulação e operacionalização de iniciativas em todas as esferas do Estado, mas, também, conhecer o que já está sendo realizado, ainda que não nomeado “governo aberto”.  

O projeto de pesquisa aplicada “Parlamento Aberto: Inovação e Colaboração nas Câmaras de Vereadores Catarinenses” buscou, em uma de suas etapas, identificar ações já existentes relacionadas aos princípios de governo aberto — transparência, participação, prestação de contas e integridade, em duas regiões do estado de Santa Catarina: o Vale do Itapocu, na qual atua a AVEVI, e o Oeste Catarinense, região da ACAMOSC. 

A área de atuação da Associação das Câmaras e Vereadores do Vale do Itapocu – AVEVI, que congrega os municípios de Barra Velha, Corupá, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Massaranduba, São João do Itaperiú e Schröeder, foi a primeira região de abordada pelo projeto. A escolha considerou o grau de articulação entre os atores locais, a heterogeneidade de porte entre os sete municípios e a identificação de interesse e condições favoráveis para a mobilização de diferentes segmentos, tendo os legislativos municipais como eixo. O convite foi voltado à construção compartilhada de uma proposta de solução para um problema público comum, por meio de estratégias de transparência e governo aberto. O caminho trilhado na região e seus resultados podem ser vistos neste Relatório e ainda na página do projeto que traz todas as ações, glossário, publicações, álbuns de fotos dos encontros

Já a área de atuação da Associação das Câmaras Municipais do Oeste de Santa Catarina – ACAMOSC, que congrega 35 municípios, foi escolhida em razão de suas especificidades políticas, sociais e econômicas. Marcada pela predominância de municípios de pequeno e médio porte, pela forte presença do cooperativismo e do agronegócio, bem como pela existência de redes comunitárias ativas, a região apresenta condições favoráveis para a análise e promoção de parlamentos e governos mais abertos, transparentes e responsivos às demandas da população. 

O ato de lançamento foi organizado pela Acamosc, em parceria com a Escola do Legislativo da Alesc, Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc – Esag | Politeia), Controladoria Geral do Estado de Santa Catarina, Organização da Sociedade Civil ACT4DELIVERY (A4D) e contou financiamento da FAPESC.

Ao aplicar o formulário nas câmaras municipais e entre atores envolvidos localmente, o projeto buscou coletar dados concretos sobre iniciativas de governo aberto: quais práticas já existem, como se caracterizam, qual o seu público-alvo, relevância, resultados alcançados, dentre outras informações.  

O formulário foi uma adaptação do aplicado no 1º Plano de Ação SC Governo Aberto, que buscou mapear práticas nos municípios catarinenses, no âmbito do compromisso “Articulação de Governo Aberto e Controle Social nos Municípios – SC Governo Aberto – OGP”, do qual o UDESC, por meio do grupo de pesquisa Politeia, fez parte. Naquela ocasião, 10 municípios responderam ao questionário, totalizando 21 práticas mapeadas, gerando um relatório destas práticas

Para promover a divulgação e a compreensão sobre o objetivo do mapeamento, a equipe do projeto apresentou o tema em reuniões presenciais e online realizadas com os municípios participantes, tanto da AVEVI quanto da ACAMOSC. Nessas ocasiões, foram detalhados o propósito do levantamento e a relevância de construir um panorama das iniciativas de governo aberto em curso no âmbito local. 

O formulário foi encaminhado por e-mail às 42 câmaras municipais e prefeituras, utilizando os endereços fornecidos pelos pontos de contato regionais. Depois de o pedido ser encaminhado a cada um dos presidentes das câmaras, os secretários executivos também receberam chamado para divulgar a pesquisa. Complementarmente, a equipe realizou contatos telefônicos para confirmar o recebimento das mensagens e reforçar a importância da participação no mapeamento. 

Apesar dos esforços de divulgação e mobilização realizados, o número de respostas recebidas foi reduzido, totalizando apenas três formulários. Esse baixo retorno pode ser atribuído a um conjunto de fatores. Entre eles, destaca-se a possível sobrecarga das equipes das câmaras municipais e prefeituras, especialmente em municípios de pequeno porte, onde a capacidade administrativa é limitada e múltiplas funções são acumuladas. A ausência de rotinas ou unidades estruturadas voltadas à pauta de governo aberto também pode ter dificultado a identificação imediata de iniciativas que se enquadrassem no escopo do formulário.  

Soma-se a isso a baixa institucionalização do tema em muitos legislativos e executivos municipais, que pode ter levado os respondentes potenciais a não reconhecerem suas práticas como ações de governo ou parlamento aberto, reduzindo sua disposição para participar. Além disso, fatores como a dificuldade na comunicação interna para tramitar demandas externas e a percepção de que o preenchimento exigiria tempo adicional sem obrigatoriedade formal podem ter contribuído para a baixa adesão. Esses elementos, combinados, ajudam a explicar o número reduzido de respostas ao mapeamento. 

Os casos recebidos são das cidades de Rio do Sul (região do Vale do Itajaí), Chapecó e Jaraguá do Sul. A iniciativa de Rio do Sul, classificada como uma “Ação”, está sob a responsabilidade do Departamento de Controle Interno e da divisão de Ouvidoria da Prefeitura. O seu objetivo central é mensurar o nível de satisfação dos cidadãos em relação aos serviços públicos municipais, utilizando os dados coletados para identificar pontos fortes, áreas críticas e direcionar melhorias na gestão. A iniciativa funciona como uma avaliação anual, com um público-alvo abrangente (“Qualquer Cidadão”) e uma meta de alcance de, no mínimo, 400 avaliações, representando aproximadamente 1% da população adulta economicamente ativa do município. 

No quesito tecnológico, a ação utiliza ferramentas digitais de baixo custo, como mídias sociais para divulgação, formulários online (Google Docs) para a coleta de dados e o auxílio de Inteligência Artificial na construção do questionário. A iniciativa se destaca por não possuir custo financeiro, encontra-se “Em implementação” e abrange os princípios de Transparência, Participação cidadã e Accountability

Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul, o maior município da região do Vale do Itapocu, aposta na formação cívica como pilar para uma democracia mais forte. A iniciativa da Escola do Legislativo Vereador Professor Balduino Raulino, em fase de implementação, nasceu com o intuito de aproximar o Poder Legislativo dos cidadãos, com foco especial em programas de participação estudantil. O objetivo é duplo: aproximar o Legislativo municipal dos cidadãos e desmistificar suas competências e funcionamento. A iniciativa concentra-se em programas voltados para a participação estudantil, definindo seu público-alvo específico como “Jovens”. O seu custo estimado é de R$ 150.000,00. 

A iniciativa “Parlamento Aberto” ilustra um movimento de colaboração regional. Liderada pela ACAMOSC – Associação das Câmaras Municipais do Oeste de Santa Catarina, a ação, que tem Chapecó como um de seus pontos de referência, tem como foco “disponibilizar as informações governamentais” e garantir que os cidadãos tenham acesso facilitado aos órgãos públicos. Para isso, a tecnologia é vista como uma “ferramenta para promover participação e transparência nas ações governamentais”. O projeto possui um custo estimado de R$ 5.000,00 e está em implementação. 

As iniciativas mapeadas oferecem indicativos sobre as possiblidades de abertura do Estado, que podem vir por diferentes formas e órgãos governamentais. Importa ressaltar que, todas, refletem um movimento fundamental: o de criar condições favoráveis para uma maior aproximação entre Estado e cidadãos – pilar da construção de uma administração pública mais alinhada aos anseios da sociedade. 

Por fim, dentre os aprendizados que o processo de mapeamento trouxe à equipe executora, destaca-se as limitações que a ferramenta de coleta de dados utilizada apresentou e a necessidade de se pensar diferentes estratégias metodológicas, que permitam avançar no conhecimento de práticas existentes voltadas à abertura do Estado em Santa Catarina. 

Espera-se que, em projetos futuros, mais iniciativas voltadas à transparência, participação, accountability e inovação possam ser identificadas, para que, além de lançar luzes sobre elas, seja possível disseminar e compartilhar boas práticas de gestão pública. 

O formulário permanece aberto para novas contribuições e pode ser respondido a qualquer momento, por meio do seguinte link: https://forms.gle/y9M8fa8MkaJVLbYT8.

A participação de câmaras municipais, prefeituras e atores locais é fundamental para ampliar o mapeamento e qualificar o conhecimento sobre as iniciativas de governo e parlamento aberto em Santa Catarina. 

Debate sobre agenda de Estado Aberto e Justiça Aberta vai dar origem a grupo de trabalho liderado pelo Politeia

Evento ocorreu na tarde de sexta, 14, seguido da realização do colóquio na Alesc

Logo após a finalização do Colóquio “Justiça Aberta: Construindo Pontes para Um Estado Aberto”, na Alesc, ocorreu o segundo evento do tema, agora na Udesc, o “Trilhas Equigov Justiça Aberta: conexões para Estado Aberto e Equidade” que reuniu especialistas e interessados em discutir como o sistema de justiça brasileiro pode avançar na implementação de práticas de Estado Aberto, com foco em participação social, transparência, accountability e inovação. O encontro ocorreu na sexta-feira, 14, à tarde, na Sala Espine da Udesc Esag, em Florianópolis. 

Debate consolidou o tema na constituição de um novo grupo de trabalho.

Organizado pelo Grupo de Pesquisa Politeia da Udesc Esag e pelo Projeto de Esino Comunidade de Práticas e NeaD – PRAPEG, do Departamento de Administração Pública, esta edição do Trilhas EquiGov contou com a parceria de outras oito instituições, evidenciando o caráter colaborativo da iniciativa voltada à promoção da justiça aberta no país, em uma coalização que congrega participantes da academia, parlamento catarinense, defensorias, ministério público, ouvidorias, tribunais e governo estadual, além de integrantes de outras universidades e sociedade civil.

A programação contou com conferências de Sarah Campos e Edgar Maturana –  especialistas no tema e membros da Rede Internacional de Justiça Aberta (RIJA). Sarah Campos, advogada e Procuradora-Geral do Município de Contagem-MG, apresentou o tema “O que é Justiça Aberta e a Parceria para Governo Aberto”, ao lados das mediadoras, as professoras da Udesc Esag e pesquisadoras do Politeia, Paula Chies Schommer e Karin Vieira da Silva. 

Na Mídia | Sarah e Edgar, acompanhados da professora Karin, ainda participaram, horas antes, do Programa Conversas Cruzadas, ao vivo, na Rádio CBN Floripa, para uma entrevista comandada pelo apresentador e jornalista Renato Igor (assista abaixo).

Na pauta da entrevista, o que é Justiça Aberta, indicações de boas práticas, desafios estruturais dentro do sistema de justiça e novas metodologias centradas no cidadão e na oferta de um estado mais aberto, diverso e acessível em diferentes níveis de justiça.

O caso da Procuradoria de Contagem, em Minas Gerais

Em sua fala, a procuradora-geral do Município de Contagem, em Minas Gerais, Sarah Campos defendeu a desjudicialização e a mediação de conflitos como caminhos necessários para modernizar o sistema de Justiça. “Nosso desafio é criar soluções mais acessíveis, rápidas, ágeis e resolutivas”, afirmou. Para isso, ela ressaltou a necessidade de a advocacia adotar uma postura menos burocrática, mais acessível e aberta. A procuradora também citou a importância de fortalecer o canal de diálogo entre a Advocacia-Geral da União (AGU), estados e municípios, especialmente em áreas como o sistema penal, o sistema socioeducativo e as polícias. 

Equidade, mediação de conflitos e desjudialização municipal foram alguns dos temas além dos relatos de casos internacionais.

“Quando falamos em justiça aberta, estamos falando de transparência, participação, prestação de contas e inovação aplicadas ao sistema de justiça como um todo. Não se trata apenas de abrir dados, mas de aproximar as instituições das pessoas e garantir acesso equitativo aos serviços públicos”, disse Sarah. 

Já Edgar Maturana, advogado, cientista social e assessor jurídico da Procuradoria-Geral de Contagem, relatou sua experiência com a Câmara de Prevenção e Resolução Administrativa de Controvérsias de Contagem (CPRAC-C), uma experiência inovadora em diálogo institucional e resolução colaborativa de conflitos. O mecanismo permite que conflitos entre cidadãos e o poder público sejam solucionados por meio do diálogo, evitando judicialização. A proposta representa uma ruptura com o modelo tradicional de confronto. “A CPRAC-C coloca o cidadão no centro da solução do seu próprio problema. É um movimento de mudança cultural, baseado na cooperação, na escuta e na construção conjunta”, afirmou.

A lei que institui a câmara foi aprovada após dois anos de discussões envolvendo diferentes setores da cidade. A iniciativa é vista como um marco em governança colaborativa e nas práticas de desjudicialização no país. 

Politeia comemora a consolidação do debate em grupo de trabalho

O encontro foi um marco para o Grupo de Pesquisa Politeia, que conseguiu promover o diálogo com órgãos públicos de Santa Catarina e consolidar propostas de cooperação estratégica no tema da Justiça Aberta e Estado Aberto, em uma ação que conjunta de trabalho da academia entre o Executivo, o Legislativo e as instituições do sistema de Justiça. 

“O estado tem um enorme potencial para se tornar referência em práticas de governo e justiça aberta. Queremos construir isso em rede, ouvindo diferentes atores e fortalecendo a equidade no acesso aos direitos”, destacou a professora Paula Schommer.

Grupo deliberou pela criação de um plano de trabalho e uma agenda permanente

Nos últimos anos, o debate sobre transparência, participação social e inovação no setor público ganhou destaque no Brasil, motivando diversas instituições a revisarem suas práticas de governança. A professora Karin Vieira da Silva também ressaltou a importância global do tema e como Santa Catarina tem potencial e legado para protagonizar inovação neste tipo de prática. 

“O movimento de Estado Aberto, que engloba Executivo, Legislativo e sistema de Justiça, tem gerado ações no mundo inteiro. Para a Udesc e para Santa Catarina, este evento proporcionou uma oportunidade ímpar de troca de experiências e a perspectiva de criação de uma rede que conecte os atores interessados no avanço da pauta”. 

O próximo passo agora será a implementação de um grupo de trabalho que deve reunir integrantes do Politeia, pesquisadores de universidades convidadas, órgãos do sistema de justiça, parlamento catarinense, OAB-SC, ouvidorias, tribunais e governo. 

Pesquisadora do Politeia apresenta pesquisas em eventos globais na Espanha esta semana

Professora da Esag Udesc, Karin Vieira da Silva participa de três sessões de debates, a partir de estudos sobre Estado aberto, governança democrática e equidade nos serviços públicos, em parcerias com outros pesquisadores e pesquisadoras 

Termina nesta sexta, 10, a intensa agenda de debates, apresentação de pesquisas e produção científica que a pesquisadora e uma das líderes do Politeia, professora da Esag Udesc, Karin Vieira da Silva, cumpre no País Basco, na Espanha, na cidade de Vitoria-Gasteiz, desde a segunda-feira, 6. 

Professora Karin Vieira da Silva na chegada ao OGP Global Summit 2025 | Foto – Arquivo Pessoal

Ela participa da IX Cúpula Global da Parceria para Governo Aberto | OGP Global Summit 2025, que reúne cerca de duas mil pessoas, entre representantes de governos,  organizações da sociedade civil, academia e organismos internacionais.  Promovida pela organização internacional “Parceria para Governo Aberto” (em inglês Open Government PartnershipOGP) e o governo da Espanha, a Cúpula global se concentrou, neste ano, em práticas para o fortalecimento da democracia, aumento da transparência pública e novas formas de participação cidadã em todos os Poderes e níveis de governo. E também para debater práticas de governo, parlamento e justiça abertas, direitos digitais, governança, liberdade de expressão e cidadania digital. 

O texto da Declaração de Vitoria-Gasteiz, redação que apresenta propósitos e compromissos dos promotores do evento, está aberta para adesão e pode ser acessado em https://www.opengovpartnership.org/vitoria-gasteiz-declaration/ 

Documento trará compromissos, desafios e ações em governo aberto no futuro | Foto- Reprodução Site

Comitiva Brasileira

A professora Karin, além de participar como pesquisadora do tema, integra a comitiva brasileira no evento, pois o grupo de pesquisa Politeia é membro do Conselho Nacional de Transparência, Integridade e Combate à Corrupção, CTICC, junto à Controladoria-Geral da União, participando do comitê que acompanha o 6o Plano de Ação Brasileiro de Governo Aberto. A comitiva é composta pelo Ministro da CGU, Vinicius Marques Carvalho, pela Secretária Nacional de Transparência e Acesso à Informação, Livia Sobota, e outros integrantes da CGU e ministérios do Executivo Federal, além de membros do Legislativo e do Judiciário.

Pesquisadora do Politeia integra a comitiva brasileira na IX Cúpula Global da Parceria para Governo Aberto – OGP | Foto – Arquivo Pessoal

Participam, ainda, organizações da sociedade civil integrantes do CTICC, acadêmicos e representantes de governos locais brasileiros que integram o programa OGP Local. De Santa Catarina, estão presentes no evento o Deputado Estadual e presidente da Escola do Legislativo da Alesc, Mauro de Nadal, o diretor da Escola do Legislativo, Alexandre Fagundes e o professor Luiz Felipe Reinecke, da Udesc Cesfi.

Pesquisadora do Politeia, professora Karin e o colega de Udesc, professor Luiz Felipe Reinecke, da Udesc Cesfi – Foto Arquivo Pessoal.

Esta edição da Cúpula da OGP marca o início da co-presidência brasileira no comitê diretivo da OGP.

Justiça Aberta

Na quarta-feira, 8, a professora e pesquisadora do Politeia integrou a sessão/painel Justiça Aberta: Passos para a Abertura do Sistema de Justiça Local, ou em inglês Open Justice: Steps Toward Opening Up the Local Justice System, ao lado de parceiros de pesquisa como a Procuradoria-Geral do Município de Contagem (Minas Gerais), Rede Internacional Justiça Aberta (RIJA), Tribunal Superior de Justiça da Cidade Autônoma de Buenos Aires, Civic Tech Field Guide e Colaboratório de Desenvolvimento e Participação (Colab-USP), grupo de pesquisa interdisciplinar da Universidade de São Paulo (USP).  

II Congresso Internacional sobre Estado Aberto e Governança da RAGA   

Nesta sexta, 10, a professora Karin participa do II Congresso Internacional sobre Estado Aberto e Governança, evento promovido pela Rede Acadêmica de Governo Aberto Internacional (RAGA Internacional). No evento, a pesquisadora apresenta o artigo, em coautoria com a também professora da Esag Udesc e pesquisadora do Politeia, Maria Letícia Barbosa Xavier, “Como os Planos de Governos Abertos do Brasil, Colômbia, Indonésia e Espanha reconhecem e buscam reduzir as iniquidades entre grupos populacionais no acesso aos bens e serviços públicos”, dentro da sessão Desafios globais e regionais para a governança democrática. O artigo decorre do projeto de pesquisa Equigov, do grupo Politeia.

Pesquisadora participa de duas apresentações de pesquisa nesta sexta, 10 | Foto – Arquivo Pessoal

Ao final do dia (17h45 horário da Espanha), ocorre a última sessão com participação da pesquisadora do Politeia, denominada “Equigov: Equidade nos serviços públicos por meio do governo aberto”. Nela, será abordado  o tema “As agendas de governo aberto estão ameaçadas? Retrocesso democrático e agendas de governo aberto na América Latina”, pela pesquisadora Karin Vieira da Silva e pelo professor e pesquisador César Cruz-Rubio, da Universidade Carlos III, da Espanha. 

Pesquisas que conectam o local ao nacional e internacional

Segundo projeta a professora e pesquisadora, a participação do grupo de pesquisa Politeia no Summit Global OGP, em Vitoria-Gasteiz, Espanha, representa uma oportunidade de aprofundar as investigações no campo da accountability, equidade em serviços públicos, governança colaborativa e governo aberto. 

Palco principal do OGP Global Summit 2025 – Open Government, em Vitoria-Gasteiz,

Ela destaca que o intercâmbio de conhecimentos e práticas, em escala global, tem permitido, nesta semana de imersão nos temas, uma compreensão aprofundada das possibilidades e dos desafios contemporâneos sobre abertura de governo, transparência, participação cidadã e integridade. “São temáticas  importantes para o avanço da administração pública em nosso país e fortalecimento do espaço cívico e da democracia”, comenta. Karin arremata ao mencionar o potencial de ações de internacionalização em rede como esta.

Compartilhamento de pesquisas locais e globais e boas práticas em diferentes culturas aceleram a formação de novas redes e pesquisas internacionais | Foto – Arquivo Pessoal.

“A interação com pares internacionais permite a articulação com potenciais parceiros para projetos de pesquisa, a formação e fortalecimento de redes de colaboração e a internacionalização das atividades do grupo Politeia e da Udesc como um todo”, conclui, já com novos projetos e contatos para o Politeia ampliar suas ações, parcerias e impacto.

Deputado Mauro De Nadal (à esq) destacou projetos como o das Bancadas Regionais e o Alesc Itinerante | Fotos – Divulgação Alesc

No Congresso da Raga, o Deputado Mauro De Nadal e o Diretor da Escola do Legislativo da Alesc, Alexandre Lencina Fagundes, apresentam, também, resultados do projeto Parlamento Aberto: Inovação e Colaboração nas Câmaras de Vereadores Catarinenses.

Deputado Mauro de Nadal – Foto Divulgação Alesc

O projeto de pesquisa aplicada é realizado em parceria entre o grupo de pesquisa Politeia Udesc Esag e a Escola do Legislativo da Alesc e diversas organizações, com recursos da Fapesc, da Udesc e da Alesc. Confira aqui, nesta outra reportagem, um resumo da apresentação do Deputado Mauro De Nadal durante a Cúpula Global da Parceria para Governo Aberto (OGP).

O Congresso da Raga também sedia, paralelamente, a 1ª Conferência Internacional sobre Governança, Tecnologia e Direitos Digitais. O objetivo é promover a criação de redes de colaboração multissetoriais entre acadêmicos, profissionais de diversas disciplinas e outras partes interessadas que ajudem a avançar no campo da governança tecnológica e da proteção dos direitos digitais nas sociedades ibero-americanas e europeias, a partir de uma perspectiva inclusiva e sustentável.

Justiça Aberta: Udesc Esag integra conferência internacional com 21 países

A professora da Udesc Esag e vice-líder do Grupo de Pesquisa Politeia, Karin Vieira da Silva, participou nos dias 27 e 28 de agosto, em Santo Domingo (República Dominicana), da Primeira Conferência Internacional de Justiça Aberta.

O encontro reuniu representantes do setor judicial de 21 países da América Latina e do Caribe, além de organizações da sociedade civil e organismos internacionais, para debater a necessidade e as possibilidades  de políticas e estruturas de justiça transparentes, inclusivas e participativas.

O evento foi de extrema importância para as pesquisas que estamos desenvolvendo no Politeia. Uma de suas grandes contribuições foi a Declaração de Santo Domingo, um avanço significativo para a promoção de políticas, estratégias e programas de justiça aberta, construídos de forma participativa e inclusiva”, explica a professora Karin.

O Grupo Politeia prepara agora um projeto de extensão sobre o tema “Estado Aberto”, a iniciar em 2026, com três linhas de ação:

  • Palestras e oficinas sobre Estado Aberto;
  • Promoção da Ciência Aberta;
  • Atividades de articulação institucional.

Segundo Karin, o objetivo é desenvolver ações voltadas à comunidade interna e externa à Udesc para a promoção da cultura e das práticas de Estado Aberto, por meio do compartilhamento de conhecimentos e da articulação interinstitucional, fortalecendo, assim, a relação entre a universidade e a sociedade.

O sistema de justiça é tradicionalmente fechado e, em alguns casos, até reativo à coprodução com a sociedade. Mas há uma demanda crescente por participação. A conferência em Santo Domingo mostrou que essa é uma preocupação de toda a América Latina e que há ações interessantes em curso. A troca de experiências fortalece a participação de instituições do sistema de justiça e organizações da sociedade civil nos espaços de co-criação de justiça aberta, com processos inclusivos e participativos”.

A Declaração de Santo Domingo prevê, ainda, alguns compromissos como: 

  • Incentivar a inclusão nos programas de justiça aberta da perspectiva de igualdade de gênero e interseccionalidade e;
  • Incorporar nos programas de justiça aberta enfoques diferenciados para atender às necessidades de mulheres, população LGBTIQ+, povos indígenas, comunidades afrodescendentes, pessoas com deficiência, vítimas, idosos, jovens, migrantes e outros grupos historicamente marginalizados.

Para dar seguimento aos compromissos, foi criado o Comitê Regional de Justiça Aberta (CRJA), composto de forma paritária por poderes judiciais, organizações da sociedade civil e organismos internacionais, com apoio da Rede Internacional de Justiça Aberta (RIJA). A Declaração de Santo Domingo está aberta a novas adesões. Basta preencher este formulário: 

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdGD-GlIDkro_MEeAaW4-JWypgmfE-iNj3dfITK9xUFOuv8aA/viewform?fbzx=8822064992728786833.

Países participantes da Conferência

Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Espanha, Estados Unidos, França, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Países Baixos, Panamá, Peru, Polônia, República Dominicana e Venezuela.

Grupo Politeia conclui uma das etapas do projeto sobre governo aberto nas câmaras municipais

Neste mês de agosto, a equipe do grupo Politeia e seus parceiros concluíram uma etapa importante do projeto de pesquisa aplicada Parlamento Aberto: Inovação e Colaboração nas Câmaras de Vereadores Catarinenses.

Iniciado em novembro de 2023, o estudo foi dividido em dois grandes grupos,  envolvendo os sete municípios ligados à Associação de Câmaras e Vereadores do Vale do Itapocu (Avevi) e os 35 municípios que integram a Associação das Câmaras Municipais do Oeste de Santa Catarina (Amosc).

Nos últimos dois anos, os pesquisadores vêm atuando  nessas regiões em parceria com a Escola do Legislativo/Alesc, a organização Act4Delivery e com o governo de Santa Catarina, por meio da Controladoria-Geral do Estado (CGE) e da Secretaria de Estado do Planejamento (Seplan), bem como a Avevi e a Acamosc . O objetivo é implementar uma metodologia de formação-pesquisa-ação que permita coproduzir aprendizagem e inovação a partir de problemas concretos de atores locais, contribuindo para fortalecer a cultura de governo aberto em Santa Catarina por meio das câmaras municipais.

No dia 15 de agosto, foi realizada em Barra Velha a oficina de encerramento do grupo Avevi. Após meses de debates, entrevistas, reuniões e oficinas, servidores públicos, gestores das câmaras e das prefeituras, além de representantes da sociedade civil do Vale do Itapocu, decidiram de forma colaborativa que o desafio  a ser enfrentado com princípios de governo aberto seria a transparência nos critérios de seleção e na lista de espera das vagas para creches

Os pesquisadores da Udesc Esag trabalharam junto aos parceiros e agentes locais para buscar uma solução colaborativa, orientada pelos princípios da transparência e do governo aberto. A partir de agora, os resultados serão documentados em diferentes formatos para serem compartilhados com os participantes diretos, mas também com acadêmicos, gestores públicos, parlamentares e a sociedade em geral.

“A região do Vale do Itapocu tem crescido em população e atividade econômica, o que aumenta a demanda por serviços públicos, como a educação infantil. A colaboração entre câmaras e prefeituras da região, o diálogo com os cidadãos que utilizam os serviços e o apoio de parceiros locais e externos permite ampliar o leque de soluções, acelerar melhorias e otimizar o uso de recursos tecnológicos e financeiros. Assim, todos podem ter acesso a bons serviços públicos, além de entender os critérios e as limitações. A transparência, o diálogo e a colaboração permite que parlamentares, servidores, cidadãos e parceiros inovem para responder a problemas concretos e também acompanhem os investimentos públicos que contribuem para o desenvolvimento da região”, explica a professora Paula Schommer, coordenadora do projeto.

O projeto também realiza o mapeamento de práticas de governo aberto nas regiões participantes e a sistematização de formas de abordar o tema em linguagem simples e contextualizada.

As próximas atividades estão previstas para setembro e outubro, na região Oeste. Conforme o cronograma, o projeto será encerrado em outubro e os relatórios finais devem estar prontos até o fim do ano.

Política, ciência e políticas públicas: violência doméstica, direitos reprodutivos e o papel da administração pública

Por Maria Carolina Nascimento e Vitória Frutuoso*

Temas sensíveis, desigualdades estruturais e o desafio da atuação pública

Discutir violência doméstica e direitos reprodutivos no campo da administração pública exige coragem para encarar temas sensíveis, muitas vezes invisibilizados por discursos institucionais ou pelo tecnicismo que marca a formulação de políticas públicas. Essas questões, além de urgentes, estão interligadas, pois ambas afetam a vida de milhões de brasileiras e impõem desafios éticos, jurídicos e administrativos à atuação estatal. Mais do que aspectos isolados de políticas setoriais, ambos os temas exigem uma comunicação estratégica, abordagem intersetorial e socialmente engajada, pois estão enraizados em desigualdades estruturais de gênero, raça, classe e território.

A violência doméstica é um fenômeno complexo e persistente. Conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou, em 2023, mais de 250 mil casos de violência doméstica (FBSP, 2024). Em Santa Catarina, o ano de 2024 marcou um triste recorde: foram 96.481 ocorrências, com média de 263 casos por dia (ND Mais, 2025). Esses números alarmantes, embora expressivos, ainda não captam a real magnitude do problema, devido à subnotificação, especialmente em regiões com pouca presença do Estado e baixa oferta de serviços especializados.

As publicações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública são elementares para a compreensão da dimensão e da complexidade da violência no Brasil. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é uma de suas principais fontes de dados, elaborado com base em informações fornecidas pelas secretarias estaduais de segurança pública, pelas polícias civis, militares, federais e outras instituições oficiais. Além disso, o Fórum realiza pesquisas, como a “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”. Essa pesquisa traz dados sobre os diferentes tipos de violência vivenciados por mulheres brasileiras ao longo da vida e nos últimos 12 meses, revelando tanto a dimensão visível, quanto aquela que permanece oculta pelas estatísticas formais. Complementando essas análises, o Fórum divulga infográficos como “Segurança em Números” (Figura 1) e “Visível e Invisível”, que apresentam os dados de forma acessível e visual, facilitando a disseminação de informações e contribuindo para o debate público sobre segurança e direitos das mulheres. O agravante é que, em muitos casos, a violência é testemunhada por crianças e adolescentes, afetando também as gerações futuras e perpetuando ciclos de trauma e exclusão.

Figura 1 – Infográfico “Segurança em Números”

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023)

O papel do Estado: limites da lei e invisibilidades nos direitos reprodutivos

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) constitui um marco no enfrentamento da violência doméstica, ao reconhecer cinco formas de violência contra a mulher (física, psicológica, moral, patrimonial e sexual) e atribuir ao Estado a responsabilidade pela sua prevenção e repressão. No entanto, quase duas décadas depois de sua promulgação, sua efetividade ainda esbarra na desigualdade de implementação entre os territórios, na escassez de recursos e, sobretudo, na cultura institucional que, por vezes, minimiza ou relativiza o sofrimento das vítimas. 

Em paralelo, os direitos reprodutivos — como o acesso a métodos contraceptivos, à informação e à autonomia sobre o próprio corpo — continuam sendo negligenciados nas discussões sobre políticas públicas. Esses direitos, já reconhecidos em legislações nacionais e internacionais, como a Constituição Federal de 1988 e a Lei do Planejamento Familiar (Lei nº 9.263/1996), ainda enfrentam fortes barreiras ideológicas, institucionais e culturais. 

Quando a política ignora a ciência: retrocessos legislativos e impactos sociais

Além disso, mesmo nos casos em que a interrupção da gestação é prevista em lei — como risco de morte da gestante, estupro ou anencefalia fetal, mulheres enfrentam obstáculos morais, jurídicos e estruturais para ter seus direitos respeitados. O Projeto de Lei 1904/2024, atualmente em tramitação, agrava esse cenário ao propor a criminalização de abortos realizados após a 22ª semana, inclusive em casos legais. Tal proposta, além de inconstitucional, representa um grave retrocesso nos direitos sexuais e reprodutivos e reforça a ideia de um Estado que, ao invés de proteger, pune. 

Essas violações, por mais íntimas que pareçam, não são problemas privados. São manifestações de desigualdades estruturais que refletem a omissão histórica de políticas públicas efetivas, com atenção especial às mulheres negras, pobres e periféricas.

É nesse cenário que se revela a importância de compreender a tríplice relação entre política, ciência e políticas públicas. A ciência oferece evidências, diagnósticos e alternativas. A política, por sua vez, escolhe o que priorizar e onde investir recursos — decisões que nem sempre seguem as recomendações científicas. Já as políticas públicas são o elo entre o conhecimento e a prática, sendo responsáveis por transformar essas decisões em ações concretas. Na prática, essa articulação entre os três pilares costuma se mostrar assimétrica, especialmente diante de disputas ideológicas e interesses políticos. Decisões políticas tendem a se sobrepor às recomendações científicas, sobretudo quando envolvem controvérsias morais ou cálculos eleitorais. 

Além disso, o distanciamento entre o conhecimento técnico-científico e a população dificulta a apropriação dos direitos pelas pessoas a quem eles deveriam servir. A linguagem especializada, os canais institucionais fechados e a comunicação verticalizada geram desinformação e alienação. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias comunicacionais mais acessíveis, empáticas e integradas à realidade social. A comunicação pública não pode ser apenas institucional — ela precisa ser também educativa, inclusiva e transformadora. 

A força da comunicação e da cultura de massa na mobilização cidadã

A veiculação de conteúdos culturais na mídia, especialmente em produções de grande audiência, pode atuar como importante aliada na divulgação de serviços públicos e no estímulo ao exercício da cidadania. Um exemplo marcante ocorreu em 2025, com a exibição da nova versão da telenovela Vale Tudo. A trama incluiu a história da diarista Lucimar, personagem que decide, após oito anos, buscar judicialmente o direito à pensão alimentícia para seu filho.

Transmitida em horário nobre, a cena teve repercussão imediata na sociedade (Figura 1). De acordo com a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, na noite da exibição — sexta-feira, 13 de maio — o aplicativo da instituição, utilizado para agendamento de atendimentos jurídicos gratuitos, registrou um pico histórico de 4.560 acessos por minuto, um aumento de 300% em relação à média de 1.000 acessos por minuto. Em apenas uma hora, mais de 270 mil mulheres procuraram informações sobre como requerer pensão alimentícia (G1, 2025).

Figura 2 – Reportagem do G1 

Fonte: Redação G1 (2025)

Esse episódio demonstra como o serviço público pode ser fortalecido a partir do diálogo com a cultura de massa. A alta demanda gerada pela novela revelou tanto o alcance da televisão como canal de conscientização, quanto a importância de serviços jurídicos acessíveis e responsivos. A cena estimulou mulheres em situação de vulnerabilidade a buscar seus direitos, evidenciando o papel das instituições públicas na garantia da justiça social.

Assim, o caso de Lucimar ilustra como serviços públicos podem ser impulsionados por iniciativas culturais, ampliando o acesso à informação e promovendo a equidade no exercício de direitos. Mostra-se, portanto, a relevância de estratégias intersetoriais entre comunicação, cultura e políticas públicas para fortalecer a cidadania e reduzir desigualdades sociais.

Outro exemplo relevante de como a comunicação pode apoiar serviços públicos e políticas sociais foi a campanha “Monstrinhos RBS | Cuide das Crianças”, lançada em 2003 pelo Grupo RBS. A ação utilizou personagens animados e a mensagem “O amor é a melhor herança. Cuide das crianças” para tratar, de forma lúdica e acessível, a temática dos maus-tratos infantis.

A campanha alcançou ampla visibilidade e conseguiu sensibilizar famílias, escolas e comunidades para a importância da proteção da infância, despertando atenção para situações de negligência e violência. Ao promover a conscientização por meio de uma linguagem simples e emocionalmente envolvente, a iniciativa contribuiu para fortalecer a rede de apoio à criança e ao adolescente, aproximando a sociedade das políticas públicas de proteção à infância.

Esse caso ilustra como estratégias de comunicação criativa podem funcionar como aliadas na prevenção de violações de direitos, estimulando a denúncia, a busca por apoio e a atuação de serviços públicos especializados. A interação entre mídia, mobilização social e instituições públicas revela-se fundamental para promover transformações culturais duradouras e ampliar o alcance de políticas públicas essenciais à garantia de direitos.

Por uma administração pública acessível, inclusiva e comprometida com a equidade

No enfrentamento à violência doméstica e na promoção dos direitos reprodutivos, é essencial que a mensagem alcance, prioritariamente, às mulheres em situação de vulnerabilidade, as juventudes e os profissionais que atuam nas áreas da saúde, educação, assistência social e segurança pública. Também é indispensável dialogar com gestores públicos e legisladores, responsáveis por formular e garantir (ou limitar) direitos. Por fim, é necessário envolver toda a sociedade, que tem um papel fundamental na desconstrução de estigmas e na construção de uma cultura pautada no respeito e na equidade.

Para que essa mensagem tenha impacto real, é necessário usar uma linguagem acessível, sensível e livre de jargões técnicos. As estratégias devem ir além dos canais oficiais. É preciso investir em campanhas educativas nas escolas, nas redes sociais, nos espaços comunitários e nos serviços públicos de saúde e assistência social.

A cultura de massa, como novelas e campanhas midiáticas, pode ser uma poderosa aliada, como demonstram os casos da novela Vale Tudo e da campanha “Monstrinhos RBS”. Ambas sensibilizaram a população, ampliaram o acesso a serviços públicos e provocaram transformações reais na vida de milhares de pessoas.

Além disso, é importante ouvir os territórios. As iniciativas mais eficazes costumam nascer do diálogo entre o poder público e as comunidades locais. Fortalecer conselhos, fóruns e canais de participação popular é essencial para que as políticas públicas não apenas existam, mas sejam legítimas, acessíveis e transformadoras.

Nesse sentido, é fundamental divulgar ferramentas públicas que ampliem o acesso à informação e aos serviços de proteção. O Painel do Ligue 180 (Figura 3), do Ministério das Mulheres, é uma dessas iniciativas. Ele reúne dados atualizados sobre a rede de atendimento a mulheres em situação de violência, permitindo buscas por estado, município e tipo de serviço. A plataforma oferece orientações sobre leis e direitos das mulheres, localização dos serviços especializados (como Casas da Mulher Brasileira, Centros de Referência, Delegacias da Mulher, Defensorias Públicas, entre outros), além de permitir o registro e encaminhamento de denúncias, reclamações e elogios sobre os atendimentos prestados. Com funcionalidades voltadas tanto para o público em geral quanto para gestores e pesquisadores, o Painel fortalece o acesso à informação como instrumento de cidadania e garantia de direitos.

Figura 3 – Painel do Ligue 180

Fonte: Brasil, Ministério das Mulheres (2025)

Portanto, é papel da Administração Pública promover a articulação entre política, ciência e políticas públicas com base em evidências, equidade e justiça social. Isso inclui garantir a oferta de serviços integrados de atenção à mulher, fomentar a capacitação de agentes públicos para o atendimento humanizado, combater a desinformação com campanhas educativas e fortalecer espaços de participação social. 

Violência doméstica e violação dos direitos reprodutivos não podem mais ser tratadas como exceções ou “assuntos difíceis”. São expressões de desigualdades estruturais que exigem respostas articuladas entre ciência, política e ação pública. Comunicar com empatia, atuar com evidências e garantir acesso à informação e aos serviços são passos para uma sociedade mais justa, democrática e comprometida com a dignidade humana.

*Texto elaborado por  Maria Carolina Nascimento e Vitória Frutuoso, estudantes de graduação em administração pública da Universidade do Estado de Santa Catarina, Udesc Esag, no âmbito da disciplina Tópicos Especiais III – Política e Políticas Públicos, ministrada por Paula Chies Schommer, no primeiro semestre de 2025.

REFERÊNCIAS

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BRASIL. L9263. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9263.htm>. Acesso em: 18 jun. 2025.

BRASIL. Portal da Câmara dos Deputados. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2434493>. Acesso em: 18 jun. 2025.

BRASIL. MINISTÉRIO DAS MULHERES. Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher. https://www.gov.br/mulheres/pt-br/ligue180. 

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G1. 2025. Cena de “Vale Tudo” faz subir pedidos de pensão alimentícia; veja passo a passo de como pedir. G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2025/05/20/cena-de-vale-tudo-faz-subir-pedidos-de-pensao-alimenticia-veja-passo-a-passo-de-como-pedir.ghtml>. Acesso em: 18 jun. 2025.

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SELVATTI, Patrick. Ingrid Gaigher: Lucimar de “Vale tudo” inspira 270 mil mulheres em uma hora. Diversão e Arte. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2025/05/7147951-ingrid-gaigher-lucimar-de-vale-tudo-inspira-270-mil-mulheres-em-uma-hora.html>. Acesso em: 18 jun. 2025.