Painel realizado antes na abertura do VIII CLAG, reuniu pesquisadores, coletivo e convidado internacional para debater o pensamento do sociólogo e os desafios e perspectivas do país As gravações serão publicadas em breve no canal do projeto no YouTube

Na terça-feira, 27, o auditório da Udesc Esag, em Florianópolis, foi palco da Sessão Especial “Diálogos sobre Guerreiro Ramos: as pessoas no contexto da Administração Pública”, promovido pelo grupo de pesquisa Politeia e parceiros acadêmicos da Udesc Esag e diversas universidades.
Gratuito e aberto ao público, o painel (veja detalhes aqui) reuniu pesquisadoras e pesquisadores de diversas universidades do país, com participação de convidado internacional por vídeo e de grupos de pesquisa para debater a contemporaneidade, a relevância e a singularidade da obra do sociólogo, escritor e pensador brasoleiro, Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982).
A sessão abriu a programação do VIII Congresso Lusófono de Gestão de Recursos Humanos e Administração Pública, o VIII CLAG, que ocorreu até ontem, 29 de outubro, nas dependências da Udesc Esag, com a participação de mais de 300 congressistas pessoas do Brasil e de Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Perspectivas e possibilidades com as ideias do “Velho Guerreiro”, como era chamado por alguns alunos e amigos
Uma das características do encontro sobre a vida e obra de Guerreiro Ramos foi a diversidade de olhares, múltiplas abordagens teóricas, perspectivas conceituais, teorias tensionadas e conectadas para dialogar a respeito dos desafios contemporâneos em diversos contextos.
Sobre o Brasil, em particular, foi debatido como o contexto político em que Guerreiro Ramos viveu influenciou sua obra e sua trajetória acadêmica, pessoal e política. E foram tecidos paralelos entre acontecimentos de décadas atrás, quando ele viveu, e o momento atual. Uma vez que o evento aconteceu dois dias após o 2° turno das eleições presidenciais, as características e legados desse processo permearam as reflexões.
Ao longo do dia de trabalhos, que começou pela manhã com gravação de entrevistas, conforme os diálogos aconteciam entre os participantes, na plateia ou palco, depoimentos reflexivos e emocionados eram proferidos. Eram os relatos de alunos, leitores, cientistas e professores, gente que teve a carreira e a visão de mundo influenciada e transformada pelas ideias, provocações e pensamentos do autor.
Mediado pelaprofessora de administração pública da Udesc Esag Laís Silveira Santos e liderado na coorganização pela professora Paula Chies Schommer, o painel da tarde iniciou com a fala do reitor equatoriano Francisco Salgado Arteaga, da Universidad del Azuay, no Equador. Ele foi o convidado internacional, que participou por vídeo.

Em seguida, o debate iniciou com a fala da convidada professora Ana Paula Paes de Paula (UFMG), seguida por Fernando Tenório (UFSC, UFT e UFRRJ) e Genauto França Filho (UFBA) . Os painelistas apresentaram suas trajetórias, conexões com Guerreiro Ramos e vivências científicas e em projetos de extensão para explicar como as ideias do sociólogo nos permitem fazer pesquisa e gestão de modos plurais, considerando a multidimensionalidade humana, a delimitação dos sistemas sociais e as características do contexto em que vivemos.
Na segunda parte do painel, os comentários sobre Guerreiro Ramos e sua teorização reuniram Ariston Azevedo (UFRGS), Elaine Menezes, Francisco G. Heidemann (docente aposentado da Udesc e da UFSC, fundador do Politeia e do Callipolis), José Francisco Salm (docente aposentado da Udesc e da UFSC, fundador do Politeia), Karina Francine Marcelino (doutora egressa da Udesc Esag), Sergio Luis Boeira (UFSC/ORD) e Vinicius Aguiar, o Rudá (Coletivo Negro Guerreiro Ramos).

Cada participante compartilhou como sua trajetória pessoal, acadêmica e política se conecta ao pensamento do autor, o que leram de mais significativo, os tensionamentos entre os diferentes campos em que a obra do autor atravessa e seu brilhantismo em livros como A Redução Sociológica (1958), Administração e Contexto Brasileiro: Esboço de uma Teoria Geral da Administração (1966 e 1983) e A Nova Ciência das Organizações: uma Reconceitualização da Riqueza das Nações (1981) entre outras obras.
Depoimentos revelam a qualidade do debate
Para a professora mediadora do diálogo, Laís Silveira Santos, o tema da sessão, o diverso e especialista grupo de pesquisadoras e pesquisadores presentes e a participação ativa dos alunos e colegas confirmou que a sessão representou o que se falava ao final do evento: foi um “grande encontro”.
“O sentimento depois de sair desse evento foi que tudo que planejamos deu certo. Superou expectativas. Foi um dia cheio, uma manhã inteira de gravações com os nossos convidados e, depois, uma tarde riquíssima com ainda mais convidados. O sentimento é que a gente fez a escolha acertada de pensar e produzir o encontro aproveitando os participantes do VIII CLAG, já que Guerreiro Ramos, em sua obra, trata da razão, a dimensão humana no centro das suas teorias, no centro de tudo que ele acreditava. Foi muito acertado a gente construir essa agenda junto a um congresso lusófono que discute gestão de pessoas na administração pública. E foi ainda mais especial a gente ter esse evento com a presença de gerações diferentes de pesquisadores sobre Guerreiro Ramos, em diferentes áreas do conhecimento”, destacou a professora.

Ainda segundo Laís, a diversidade temática debatida ao longo do painel foi outro ponto de destaque. “Foi incrível ver diferentes abordagens e a complementariedade dos estudos; identificar como as nossas pesquisas se conectam e estão pautadas e atuais em Guerreiro Ramos, que faleceu na década de 1980, autor que teve a sua obra desenvolvida décadas atrás. Aqui vimos que a gente consegue, hoje ainda, aplicar suas teorias para debates de temas tão atuais e necessários, como discussões raciais, a democracia participativa, a necessidade de abertura para o diálogo em um momento de polarização política, outras formas de comunicação… ou seja, toda uma racionalidade que ainda está presente nessas discussões”, comenta.
Por fim, a professora reflete sobre a promoção do painel e o futuro das teorias e ideias do sociólogo: “a partir do evento que a gente organizou e que foi tão bonito, com tantos registros e tantas pessoas saindo felizes e encantadas por esse encontro, vejo que conseguimos fazer realmente um “grande encontro” sobre Guerreiro Ramos. Saímos de lá com mais energia para manter as pesquisas em andamento, com base nele e em sua obra atemporal; pesquisas vivas e com novos olhares, novas perspectivas, mas sem deixar de lado as ideias e os estudos dele que nos guiam e orientam o que a gente está produzindo agora”, concluiu a mediadora.
Os professores e organizadores, Ariston Azevedo e Paula Schommer (Udesc Esag e Politeia) foram responsáveis por apresentar o projeto Diálogos sobre Guerreiro Ramos e o significado dessa sessão especial para o andamentos dos estudos e produções em torno dos conceitos e dilemas teóricos enfrentados por Guerreiro Ramos.
A professora Paula Schommer destacou que o encontro foi um momento muito especial na trajetória do projeto Diálogos sobre Guerreiro Ramos: contribuições para a ação na atualidade, que vem sendo construído colaborativamente desde 2021, a partir de uma proposta do Professor José Francisco Salm.

“Desde então, temos reunido pessoas e conhecimentos sobre Guerreiro Ramos, em uma jornada de descobertas compartilhadas sobre esse intelectual fascinante. A cada encontro, a gente vê ainda mais sentido nesse projeto e fica mais motivado a ler e reler suas obras e a observar suas decorrências em várias disciplinas científicas e nas relações sociais, produtivas e políticas. É uma base que nos permite ver a nossa realidade de modo mais abrangente e mais profundo”.

De acordo com o coorganizador da Sessão Pré-CLAG, professor Ariston Azevedo o projeto foi pensado e dedicado às ideia de um dos grandes sociólogos brasileiros, “que nos deixou como legado não apenas um importante corpo teórico, mas também uma centelha, uma esperança e, sobretudo, eu diria, um desafio, qual seja, o desafio de levar adiante o projeto de um Brasil capaz de proporcionar a seus cidadãos uma sociedade que corresponda aos nossos anseios de liberdade, nossos anseios de justiça e, por que não dizer, aquele bem viver anelado por todos os brasileiros”, explica. “Eu quero, primeiramente, agradecer à professora Paula Schommer, obviamente, e a todas as pessoas que dão forma ao grupo de pesquisa Politeia. A professora, com dedicação e êxito, e essas pessoas reunidas em torno dela conseguiram levar adiante aquela centelha de desafio lançado pelo professor Francisco Salm, que era o de registrar o legado teórico de nosso sociólogo. Professor Salm, professor Heidemann, dois ex-alunos de Guerreiro Ramos, nos colocaram esse desafio, e eu estou certo de que conseguimos realizar à altura das expectativas, sem sombra de dúvidas”, comemora o coorganizador.

Ao longo desses cinco anos, e particularmente nesses últimos dois anos, muitas pessoas, recorda Ariston, entre as quais ele próprio se inclui, dedicaram tempo, empenho e estudo para transformar aquela ideia em realidade. “Tínhamos pela frente um desafio considerável, né? Dialogar com pesquisadores da envergadura de Christian Lynch, Ana Paula Paes de Paula, Fernando Tenório, Genauto França Filho, Francisco Salm, pessoas que não apenas estudaram a obra do velho guerreiro, mas também se empenharam em avançar a partir dele, né? Acrescentando novas perspectivas e elementos teóricos ao legado deste grande pensador, comenta. Sem sombra de dúvidas, eu quero dizer aos integrantes do grupo Politeia e às pessoas colaboradoras que foi uma experiência muito gratificante. Nosso painel, realizado diante de um auditório cheio, há que se destacar, foi uma bela maneira de coroar todo esse esforço coletivo. Diria também que foi uma demonstração de que o pensamento de Guerreiro Ramos continua suscitando interesse, diálogo e muita reflexão”.
Ao concluir, o professor fez um balanço, agradecendo à colaboração e o trabalho coletivo do grupo, o coleguismo acadêmico e o objetivo em comum que reuniu tantos pesquisadores e pesquisadoras nestes anos, em torno da vida e obra de Guerreiro Ramos. “Encerro com um sentimento de profunda gratidão pela oportunidade de fazer parte dessa equipe e dessa iniciativa. Fico com agradecimento a todos e todas que contribuíram para torná-la possível e, principalmente, a certeza de que nosso trabalho não termina aqui. Afinal, se há algo que o legado de Guerreiro Ramos nos ensina, eu diria, é que não basta interpretar o Brasil, sabe? É preciso continuar pensando e trabalhando para transformá-lo. É neste fio condutor que todo esse trabalho se insere”, contextualizar o professor e especialista em Guerreiro Ramos, Ariston Azevedo.
Resumo do projeto e parcerias
A sessão integra o projeto “Diálogos sobre Guerreiro Ramos: contribuições para a ação na atualidade”, realizado em parceria entre os grupos de pesquisa Politeia (Udesc Esag), Organizações, Racionalidade e Desenvolvimento (ORD/UFSC) e Pluralismo Jurídico e Interculturalidade nos Estados Latino-americanos (UFRGS). O projeto tem financiamento da Fapesc e da Udesc, por meio do Programa de Apoio à Pesquisa (PAP). A sessão deste 27 de outubro contou ainda com o apoio do Prapeg da Udesc Esag e do Coletivo Negro Guerreiro Ramos.
Vídeos desta etapa do projeto: lançamento será nas próximas semanas

As gravações desta etapa dos Diálogos já estão sendo editadas e, em breve, serão publicadas e divulgadas no canal do projeto no YouTube, que reúne uma série temática de vídeos de divulgação científica sobre as ideias do sociólogo. A data de publicação será anunciada pelos canais da Udesc Esag e do Politeia.
